Artigo/opinião: Nunca vi, nem comi; eu só ouço falar!

30/07/2020 11h13 - Atualizado em 30/07/2020 11h20

No passado, quando se falava em almejar um cargo político, já se pensava na necessidade de ter alguma vocação, mas esta realidade mudou, pois além da vocação é necessário que se tenha (ou deveria), pelo menos, alguma qualificação. O pensador que inspirou esta tese inicial da vocação foi o filósofo Platão, que dizia que para ser um político (que ele chamava de "Governante Filósofo") a pessoa deveria ter no mínimo cinquenta anos e estudar assuntos ligados à política desde criança para poder obter uma "maturidade política". Seguindo esta linha de raciocínio, ao invés de criarem cursos ou “escolas públicas” específicas para tal finalidade, o Brasil viveu vários séculos suprimindo os estudos da organização social e política brasileira, repassando de forma automática o poder político de pai para filho.

Agora vivemos em uma era tão diferente da de Platão, que a informação é tão rápida, que as pessoas não conseguem assimilar todas elas e por isso mesmo foram criando camadas, especialidades em diversas áreas, para uma formação específica e assim obterem mais eficiência e oportunidade de trabalho para a população. Vejamos que o princípio da eficiência está esculpido no "caput", do art. 37, da Constituição da Republica Federativa do Brasil, que diz que a administração pública necessita de se qualificar, exigindo assim concurso público para seus integrantes. Mas o tal do político não se sente um agente da administração pública. Simplesmente ignora a educação e mentindo que está lá lutando para promovê-la.

Todos os trabalhadores, do setor privado e público, passam por um processo de formação para ensejar, mediante cursos de capacitação, técnicos, faculdades e concursos, uma pessoa qualificada para o seu labor diário, mas os políticos e pretensos políticos, não passam pelo mesmo crivo, não existindo lógica e nem coerência por parte de quem os escolhe. Quem acha desnecessário se qualificar para se candidatar, não está nem um pouco preocupado com educação. Usar parte do fundão para o pós eleição, promovendo cursos de capacitação, sem ter que usar o escasso erário próprio de cada ente federativo, já seria um enorme avanço.

Nos últimos seis ou cinco anos, surgiu uma tendência que precisa urgentemente ser incentivada e cobrada pelos eleitores, pelo bem comum e pela saúde das gestões públicas nas esferas federais, estaduais e principalmente municipais. São as escolas de formação de políticos que fornecem estudos teóricos e até práticos para candidatos a futuros legisladores e gestores. Nos EUA, por exemplo, há um Curso específico nas Universidades chamado de "Governo", que não é obrigatório e nem possui viés ideológico, nele os acadêmicos aprendem conhecimentos gerais do Poder Executivo. No Brasil infelizmente ainda não atingimos a maturidade necessária de distinguir o que é Governo e o que é nação.

Devemos louvar os referidos cursos de formação, mas também devemos desprezar as empresas e instituições que ofertam cursos de formação de demagogos, onde a pessoa é incentivada a aprender apenas a fazer marketing eleitoral, como “falar bem” e como ter uma “imagem de líder” (um verdadeiro fingidor) para a população se sentir confiante ao votar no candidato. O que é mais importante, ter aparência de líder, falar bem ou uma pessoa entender do assunto de verdade, resolver os problemas, agarrando-se somente a realidade? Não teria necessidade nem de responder, mas há quem ainda se vende pelas aparências e palavras.

Na mesma proporção, devemos desprezar as pessoas que pouco se preocupam com a imagem, qualificação e com as responsabilidades que pretendem assumir. Fazendo de suas candidaturas um mero jogo de politicagem e assim tentarem levar vantagem. Despreze os que pretendem se eleger porque imaginam que será um ganho fácil e com pouco trabalho (um bico), confiantes na contratação de pessoas para a realizarem os seus próprios trabalhos, num ambiente de pouca cobrança e preocupados apenas com a agregação do seu status na sociedade. Fala-se muito que os políticos ganham muito, mas o fato não é o quanto ganham, e sim o quanto fazem, a imoralidade pública grassa de forma cruel sobre ricos ou pobres, ninguém está imune a ela, e muitas vezes mesmo pessoas abastadas sofrem as consequências de qualquer desgoverno.

O eleitor não confia mais em partidos e nem nos políticos, mas quer confiar em uma pessoa, quer depositar seu voto em quem não esteja associada às velhas práticas políticas e por mais que seja óbvio, deve-se ressaltar a honestidade, principalmente quando se vê os velhos “gastos durante uma eleição”. No mesmo "caput" do art. 37, da CF, há um outro princípio chamado de moralidade e este informa aos pretensos candidatos e futuros agentes públicos, a “obrigação” de serem honestos e se um político gasta tanto para ser eleito, pode ter certeza que o velho ditado de que nem injeção na testa sai de graça, irá se operar.

Todos os setores da sociedade passaram por fases de qualificação, mas e a política? Não precisa! Basta fazer pesquisas de intenção, dinheiro na capanga e alguns deputados em cima do palanque. Se ganhar, depois vai ver o que é preciso fazer. Todos os setores do país são obrigados a promoverem metas, seguirem prazos, cumprirem regras mínimas e os legisladores, por exemplo, continuam imunes a todo tipo de cobrança de metas e prazos. Os Governantes também são imunes aos prazos e admite-se assumirem governos sem nenhuma meta. Tá tudo errado e a saída é exigir cada vez mais qualificação, menos desculpas usando o pretexto da burocracia e que assim possamos ter mais candidatos a gestores e menos candidatos a políticos.

O saudoso Chacrinha já dizia que “quem não se comunica, se trumbica” e hoje em dia com certeza ele mudaria o comunica por qualifica. Não podemos mais aceitar em política e gestão pública os dizeres da música de Zeca Pagodinho: “nunca vi, nem comi; eu só ouço falar“. A vez da política já passou da hora de acontecer e é imprescindível uma reciclagem para abrirmos novos horizontes, que possam ir em direção à seriedade e não em direção aos interesses somente dos políticos e da política. Os políticos de ontem, de hoje e de amanhã, não são apenas gestores da lei e gestores da pólis, eles são “gestores de vidas”. Daí eu pergunto. Até quando aceitaremos um representante do povo sem um mínimo de qualificação, moralidade, eficiência e respeito à vida?

Por Mário Sérgio Melo Xavier  

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